
O disco "Shine a Light" é a banda sonora ao vivo dos Rolling Stones protagonizada para o filme-concerto de Martin Scorsese com o mesmo nome, que agora estreia nas nossas salas de cinema.
A natureza íntima das duas actuações no Beacon Theatre, em Nova Iorque, deixa os Rolling Stones a sós com o seu talento musical, sem a intromissão do circo megalómano que ergue os seus concertos de estádio.
A atmosfera deste disco duplo é imposta pela energia de garotos dos Rolling Stones (garotos sessentões) que ainda não se cansaram de festejar a existência do rock & roll - como se nota. A pitada de blues que vai pontuando cada canção e aquela dinâmica sonora de funcionamento tão automático são marcas que distinguem os Rolling Stones.
A heterogeneidade dos convidados que sobem a palco, do indie-rocker Jack White (líder dos White Stripes e dos Raconteurs) ao velho bluesman Buddy Guy à estrela pop Christina Aguilera, apenas comprova a extensão do universo dos Rolling Stones e da sua audiência.
E a máquina, que há 45 anos não encrava, vai mostrando, com sabedoria, as suas várias mudanças: ora puxa pelo hino óbvio ('I Can¿t Get No Satisfaction'), ora puxa por um tema velhinho mais esquecido (como o tema-título do disco e do filme); ora puxa pelo rock mais dinamitado (como a faixa de abertura 'Jumpin' Jack Flash'), ora puxa pela melodia directa aos corações (como a incontornável 'As Tear Goes By'). A máquina continua em pleno, portanto.
Nada de novo, mas sentir os Rolling Stones dentro de uma sala é como viajar dentro de um Ferrari em vez de o ver a 40 metros de distância. O disco faz bem a simulação.

O novo disco de Madonna é passível de causar um certo efeito ainda antes de ser ouvido. É o décimo primeiro numa carreira que tem vindo a oferecer edições com espantosa regularidade desde 1983. Apresenta na capa a cantora ainda mais despida que na sua fase "Erotica", cheia de pinta de maestra sado-maso. É o sucessor do surpreendente e fresco "Confessions on the Dance Floor". E depois é mais um disco da artista que não só deu a volta ao pop como o tornou parte da sua própria história.
Madonna acima de tudo é uma mulher inteligente. Foi buscar os mágicos do hip-hop Timbaland e Pharrell Williams para comporem a tela e a popularidade de Justin Timberlake para colorir e deixou meio mundo curioso. Quando deu a ouvir o primeiro single '4 Minutes', foi quase como se estivesse a afirmar: «Aqui estou eu e mais uma vez já sou outra coisa qualquer». Ela sabe-o e sabemos nós. Se há algo que Madonna faz bem é reinventar-se. Geralmente os seus discos acompanham este talento para ler o ambiente geral. "Hard Candy", contudo, falha em grande parte deste propósito.
Logo à partida, 'Candy Shop' faz lembrar 50 Cent pelo título mas anda mais próximo de uma Kylie Minogue. Pharrell deu o seu toque à música mas não o suficiente para a tornar o tema ideal para abrir um disco de Madonna. Logo a seguir vem em jeito de compensação '4 Minutes', que é o single óbvio e uma das melhores do álbum. Vá, por esta altura ainda é perdoável a confusão com a Nelly Furtado de "Loose".
A diva australiana é outra vez evocada em 'Give It 2 Me' e 'She's Not Me', mas apesar de tudo ainda achamos compreensível, afinal sempre é a única princesa no reino de Madonna. A batida hip hop começa a ser recorrente por esta altura como a cantora tinha prometido, mas já estamos com aquela sensação que já ouvimos isto em algum lado. 'Heartbeat', 'Incredible' e sobretudo 'Miles Away', que faz lembrar 'What Goes Around .../...Comes Around' de Timberlake e curiosamente também de Timbaland, transformam a sensação em certeza. Com metade do álbum para trás já fica dificil sermos conquistados, mas a diva ainda tenta com a melhor sequência do disco 'Beat Goes On', 'Dance 2Night' e a aula em castelhano de 'Spanish Lesson', mais atiradas para a pistas de dança. A balada da praxe chega quase no final com 'Devil Wouldn't Recognize You' a fazer lembrar um "Bedtime Stories" com o banho do novo século. E fica dificil não terminar a fazer comparações, depois de 'Voices' fechar o álbum e trazer de novo e irremediavelmente a luso-canadiana mais conhecida do momento.
Este doce de Madonna é complicado de digerir por não trazer a frescura de muitos dos seus álbuns anteriores. Reinvenção sem risco parece ser a proposta da diva. Talvez seja apenas um fechar de ciclo. Este ano Madonna faz 50 anos e já prometeu mais dez de carreira. A ver vamos.

A ansiada espera pelo terceiro álbum dos Portishead, depois de uma década volvida desde a edição do seu disco homónimo, elevou o grau das expectativas e da curiosidade dos seguidores da banda de Bristol.
Perante o mistério e as especulações que iam aparecendo sobre a direcção musical do sucessor de "Portishead", a banda viria a responder com o anúncio de um simples "Third", para designar o seu terceiro disco. Mas também avisaram que seria irmão mais velho da sua família discográfica. O que muitos não esperavam é que a reinvenção sonora da banda chegasse tão longe e para muitos dos fãs a estranheza causada pela "bélica" 'Machine Gun' - single de apresentação - construída sob uma batida forte, num ritmo compassado fazendo lembrar rajadas de metralhadora, fez temer um distanciamento quase total com aquilo que lhes era familiar na obra dos Portishead. E, de facto, "Third" é um álbum muito diferente de "Dummy" e de "Portishead", mas não a ponto de não se reconhecer nele a banda. 'Hunter' é talvez a canção que mais imediamente evoca o universo intimista e melancólico do colectivo, num registo aparentado ao da "irmã" 'Glory Box'. Mas os riffs de guitarra revelam que o ritmo forte marcado das composições se repete em todo o disco, e que a força de 'Machine Gun' e andamento da batida de percussão presente logo na faixa de abertura, 'Silence', estão, de uma forma ou de outra, para ficar, em "Third". No tema 'Nylon Smile' a percussão dissolve-se numa brisa de leves toques abrasileirados, no jogo sussurrado com a voz de Beth Gibbons, que se aninha de forma doce na melodiosa 'The Rip' antes desta começar a acelerar para um tom electrónico 80's ao estilo kraftwerkiano. De facto, em "Third", o dijing típico dos Portishead acaba por perder um pouco do seu protagonismo para a bateria e para as guitarras. A tríade 'Plastic', 'We Carry On' e 'Machine Gun' é disso exemplo.
A rivalizar em força com 'Machine Gun', 'We Carry On' é um dos grandes temas deste álbum que se vai descobrindo e revelando em sucessivos momentos de interesse. A entrada quase trance do tema, dificilmente faria prever a energizante guitarra, que irrompe na música trazendo ecos revivalistas do rock alternativo.
'Deep Water' talvez fosse dispensável no alinhamento do novo disco dos Portishead, mas a atmosfera negra de 'Small' e de 'Threads' ou a densa e sentimental 'Magic Doors' confirmam "Third" como um grande disco. Um disco que vale por si, diferente dos seus antecessores, onde ainda assim se reconhece a marca dos Portishead, desta feita sem o convite explícito para se entrar no seu mundo. "Third" oferece antes, de dentro para fora, como uma abertura desse mundo ao exterior.

Os R.E.M. colocaram rock & roll no despertador e acordaram. No álbum anterior, "Around the Sun" (2004), o trio norte-americano não foi rigoroso em relação à origem do nome: falamos do rápido movimento de olhos que corresponde à fase cerebral mais activa do sono, onde ocorrem os sonhos mais fortes. A banda foi apanhada em "Around the Sun" num momento de hibernação mais vegetal, em que produz um álbum ausente, mais aborrecido que calmo e, lástima para qualquer fã dos REM, sem uma única grande canção. O disco nunca desperta.
"Accelerate" é diferente, tem a entrega física de um álbum do tudo ou nada. A guitarra eléctrica de Peter Buck volta a estar bem amplificada, a bateria recupera a teimosia de outros tempos e o vocalista Michael Stipe passa a ter mais dificuldades em segurar o microfone no mesmo sítio. "Accelerate" é um disco de alta pressão, gravado em tempo 'record', dentro dos parâmetros de uma banda punk (menos de um mês, sem contar com as misturas que também não duraram muito). Os REM sentiram-se sacudidos pela indiferença de "Around the Sun", e que bem.
Mas a transpiração de "Accelerate" tem uma companhia essencial para os elogios: a inspiração. Ainda para mais num disco eléctrico, ao qual os REM sabem acrescentar sempre aquela meiguice pop com direito a marca de autor. Ter sobre aquela execução musical rude a poderosa voz de Michael Stipe, é como iluminar o dinamismo rockeiro com uma sensibilidade pop transcendente. Os corinhos do baixista Mike Mills a adocicar os refrões são o golpe de asa que falta para assegurarem o voo do rock para a pop ao modo rápido de servir de "Accelerate".
Será este álbum o verdadeiro sucessor do seu concorrente eléctrico "Monster" (1994)? Não. Monster é antes uma reflexão pós-grunge e uma reposta espiritual à morte imprevisível do amigo de Stipe, Kurt Cobain (o mítico líder dos Nirvana) - há uma façanha paralela de Neil Young nesse ano, "Sleeps with Angels", que consegue ser ainda melhor.
"Accelerate" é o regresso mais genuíno dos REM ao seu percurso dos anos 80, como nunca aconteceu desde "Out of Time" (1991). O frenesim eléctrico da maioria das faixas de "Accelerate" (como 'Horse to Water', 'I'm Gonna DJ' ou o tema-título do álbum) é reconhecível naquela vontade de conquistar o mundo audível em 'Green' (1988). E mesmo as canções pop mais contemplativas ('Hollow Man' ou 'Houston') são viagens directas ao tempo dos serões de tarde melancólicos que produziram pérolas como "Lifes Rich Pageant" (1986) ou "Document" (1987).
Será "Accelerate" um álbum com um estado de espírito nostálgico? Não se sabe. O rock está a ficar sem data e subiu há muito um degrau para a escala de intemporal, graças a bandas da estatura dos R.E.M., que ao fim de mais de 25 anos ainda conseguem produzir álbuns da envergadura deste.
Aula de Francês
Festa da Primária
Dia Mundial da Música
DJ NERIK